Portugal tem vivido, de forma quase contínua, sob o impacto de cheias e ventos fortes associados à passagem sucessiva de frentes de baixas pressões com nomes sofisticados: Francis, Goretti, Harry, Ingrid, Joseph, Kristin, Leonardo e Marta.
"Os nomes são, de facto, fancy. A realidade, porém, é tudo menos elegante. E os combóis de frentes e de nomes começam a ser, no mínimo, irritantes. Onde está o anticiclone dos Açores? A repetição e o teatro de operações no terreno está, no entanto, a expor novamente um problema que não é meteorológico, mas organizacional e de liderança."
"Sempre que uma destas crises ocorre, assistimos ao mesmo cenário: populações que se sentem abandonadas; bombeiros exaustos; proteção civil sob pressão; militares, GNR, INEM, hospitais, câmaras municipais e múltiplas entidades a intervir, muitas vezes com enorme dedicação. Isso não está em causa. O problema não está nas pessoas. Está no sistema."
"Em contexto de catástrofe (e em muitos outros), não pode haver múltiplas lideranças difusas. Não pode haver vários galos para o mesmo poleiro. Tem de existir uma liderança clara, legitimada e visível, agregadora de tudo e com poderes sobre todas estas entidades, para planear, recrutar, alocar e implementar no terreno. Para tudo, portanto. Que seja responsável por um plano integrado de intervenção imediata, recuperação e reconstrução e, sobretudo, integrado no sentido da ação no terreno. Sem isso, o que surge é o habitual: lutas de galos institucionais, disputas de protagonismo, comunicação contraditória e uma perigosíssima diluição de responsabilidades." afirma José Crespo de Carvalho, Presidente do Iscte Executive Education