Opinião de Alexandre Ruas, Managing director da Claranet Portugal (in “110 Vozes sobre IA Generativa, Bots, Agentes e Robôs”, do Iscte Executive Education)
Para Portugal, esta corrida abre uma janela de oportunidade estratégica.
Um país ágil, com uma geração qualificada e com massa crítica tecnológica em crescimento, pode elevar, nesta década, a sua posição competitiva europeia de forma significativa.
Duas velocidades, dois horizontes
Vivemos um momento raro na história. Uma tecnologia de propósito geral, com capacidade de transformar simultaneamente quase todos os setores de atividade, foi disponibilizada a centenas de milhões de pessoas em pouco mais de três anos. A inteligência artificial generativa, os agentes, os chatbots ou a robótica avançada estão a redesenhar a forma como as organizações operam, como os profissionais trabalham e como as economias competem, a um ritmo que não tem paralelo nas grandes vagas transformacionais anteriores.
Em poucas ou nenhuma dessas vagas, o intervalo entre disponibilidade, adoção e massificação foi tão curto, os ganhos de produtividade foram tão imediatos e a margem de manobra entre liderar e ficar para trás se reduziu a tão poucos trimestres.
Diante desta aceleração, pensadores, líderes, decisores políticos, profissionais individuais, mas também o comum mortal, enfrentam uma pressão legítima para responder com velocidade. Essa pressão é, em si mesma, saudável. Mas exige, simultaneamente, lucidez sobre a natureza do que está em jogo – porque a inteligência artificial não representa, ao contrário do que sugere o ruído mediático, uma única transformação. Representa duas corridas distintas, com velocidades e horizontes temporais diferentes, que exigem respostas complementares. Confundi-las – ou responder a uma ignorando a outra – é, a meu ver, o erro estratégico mais provável dos próximos tempos.
Uma é um sprint. Mede-se em trimestres e recompensa quem experimenta, adota e transforma. Determina, no curto prazo, competitividade, produtividade e relevância de mercado. A outra é uma ultramaratona. Mede-se em décadas e recompensa quem constrói, com paciência, o que é distintamente humano. Desenha, no longo prazo, o tipo de organizações, de profissionais e de sociedade que vamos construir, e o lugar, nobre e insubstituível, que o ser humano ocupará nessa construção.
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