A habitação é infraestrutura social. E, como toda a infraestrutura, precisa de algo que Portugal muitas vezes subestima: execução.
Artigo de Vasco Pereita Coutinha, CEO da Lince Capital Real Estate, no Observador,
Quando penso em habitação, lembro-me de imediato de uma situação simples, quase banal, mas que diz muito sobre o país em que vivemos neste momento: uma família tenta mudar-se dentro da mesma cidade e percebe que «escolher» já não é escolher — é competir. Um anúncio surge de manhã, há visitas marcadas para a tarde e, ao final do dia, o imóvel já desapareceu ou o preço já foi «ajustado». Noutros casos, alguém aceita um arrendamento com uma cláusula frágil, não porque seja o melhor, mas porque é o único que cabe na urgência.
Estes exemplos não são exceções.
São sinais de que a habitação passou a funcionar como um funil: muita procura a entrar, pouca oferta a sair e um conjunto de regras e atrasos pelo meio que agravam o estrangulamento. Quando isto acontece, as consequências não ficam no mercado imobiliário, entram na vida real: atrasam projetos familiares, empurram jovens e estudantes para a precariedade, obrigam trabalhadores essenciais a viver longe do emprego, acentuam desigualdades e transformam a cidade numa espécie de «clube» onde nem todos podem permanecer.