O admirável mundo novo da criação digital

Autor:

Artigo de opinião de Pedro Esteves, formador e consultor em Inteligência Artificial, inovação e empreendedorismo no Iscte Executive Education e no IPPS-Iscte.

Em resumo:

  • O vibe coding permite criar aplicações, websites e outras ferramentas digitais a partir de instruções escritas em linguagem corrente, sem saber programar.
  • Quem conhece o problema passa a conseguir construir um protótipo funcional e a mostrá-lo à equipa técnica, o que reduz custos, tempo e perda de informação.
  • Não substitui os programadores: segurança, estabilidade e escala continuam a exigir conhecimento técnico.
  • Estas plataformas têm custos de utilização, e a formação ajuda a reduzir o custo de experimentar sem saber.

O que é o vibe coding? É a criação de soluções digitais, como aplicações, websites ou automatizações, através de instruções escritas (prompting) a plataformas de Inteligência Artificial generativa, em vez de código escrito à mão. Ferramentas como o Google AI Studio, o Lovable ou o Claude são exemplos desta nova categoria.


Durante muitos anos, existiu uma linha que separava quem identificava um problema dentro de uma organização e quem tinha a capacidade para construir a solução digital para esse mesmo problema.

Isto acrescentava, desde logo, uma camada de constrangimento e de custos. O profissional que lida diretamente com o problema no seu dia a dia, normalmente conhece o seu processo com profundidade, compreende e até consegue imaginar uma solução para trabalhar melhor. No entanto, se essa solução implicar a criação de uma automatização ou outro desenvolvimento informático, é necessário recorrer a especialistas.

Isto faz com que qualquer nova implementação seja custosa, porque se é necessário empenhar horas de equipas de TI, sejam internas ou terceirizadas, existe um investimento logo à partida que tem de ser feito, numa fase em que ainda nem sequer se validou se aquela que parece ser a solução para servir o fim pretendido é efetivamente eficaz.

É neste contexto, que novas ferramentas de Inteligência Artificial generativa estão a começar a mudar o paradigma instalado.

Desde a explosão da IA generativa, que surgiu toda uma nova categoria de plataformas que permitem criar soluções digitais, como aplicações, websites e outras ferramentas, através de instruções, o prompting, tendo sido esta técnica batizada como vibe coding.

Esta categoria, veio destapar aquilo a que podemos chamar de um novo "oceano azul", que consiste nas pessoas que até então queriam resolver os seus problemas com soluções digitais, mas que por força da sua falta de especialização em informática não tinham como o fazer, visto que a curva de aprendizagem era demasiado grande e implicava um custo de oportunidade significativo. Não faz grande sentido que um bom profissional de gestão, por exemplo, tenha de investir uma parte relevante do seu tempo a aprender a programar, apenas para poder testar uma ideia, seja ela qual for. Contudo, estes últimos poucos anos têm alterado a forma como encaramos este cenário.

Esta nova leva de tecnologia não significa, porém, que quem hoje utiliza estas plataformas de vibe coding se vá transformar num programador. De todo, até porque existe um conjunto de princípios e requisitos, associados à segurança e ao funcionamento do software, que não desapareceram e são centrais para a estabilidade de uma plataforma digital em funcionamento.

Mas falamos, sem grandes dúvidas, de toda uma camada de agilidade que está agora acessível a todos os que a queiram explorar.

É importante frisar que o eficaz desenvolvimento de software exige conhecimento técnico e continuará a exigi-lo. No entanto, o processo tradicional de criação introduz também, para além dos custos, uma determinada lentificação que dificulta a experimentação de novas ideias e a melhoria de processos dentro das organizações.

Prototipar sempre fez parte da inovação

Eu venho da gestão de produto digital e estou habituado aos típicos ciclos da iteração do produto, onde começamos por identificar um determinado problema, criamos algum tipo de experiência para validar junto dos utilizadores e, se existir validação, avançamos para a produção, normalmente com o apoio de equipas técnicas especializadas.

Por herança dessa função, já utilizava, antes da IA generativa, várias ferramentas da chamada categoria no-code e low-code, que são ferramentas que permitem criar soluções digitais sem programar da forma tradicional, mas que continuam a exigir tempo de aprendizagem. Pensemos em plataformas como o Wordpress e a portuguesa Outsystems para ilustrar esta categoria.

Agora, com o surgimento desta nova categoria de plataformas, potenciada pelos modelos de linguagem, todo esse conhecimento e experiência que tinha até então foi amplificado.

Na minha prática, isto foi relevante porque me deu não apenas um novo (e melhor) nível de agilidade, mas sobretudo velocidade dentro desses mesmos ciclos. O tempo que antes era necessário para criar um simples protótipo visual e experimental, permite agora criar uma solução ligada a uma base de dados e com uma qualidade visual muito superior ao que até então se fazia. Ou seja, os protótipos passaram a ser produtos realmente utilizáveis, com um nível de interatividade entre solução e o utilizador muito superior e, uma vez mais, numa fração do tempo necessário no paradigma anterior.

Quem conta um conto deixa de acrescentar tantos pontos

Nas aulas que dou sobre esta matéria e técnicas com IA, ensino precisamente a prototipagem e a criação das primeiras versões funcionais de uma qualquer solução que se tenha em mente.

Um dos comentários que ouço com frequência é qualquer coisa como: "Isto vai facilitar-me imenso a vida, porque temos de desenvolver uma solução para um problema dentro da organização e agora consigo fazê-lo eu e mostrar à equipa de desenvolvimento exatamente aquilo que queremos, como queremos."

Este ponto muda muito, porque se reduz a natural entropia que a passagem da informação sofre em cada nível da comunicação com os diferentes interlocutores, em especial com aqueles que não vivem o problema nem o sentem em primeira mão. Ou seja, as pessoas que estão na linha da frente conseguem agora traduzir o seu conhecimento diretamente em algo concreto e à sua medida.

Enquanto que antes se dizia algo como "Tenho este problema e preciso de uma solução para isto.", agora conseguimos chegar mais longe com a ideia de que "Tenho este problema, esta é a solução que proponho, já a testei e funciona assim. Agora tornem-na mais robusta e preparem-na para produção e escala."

Dos 8 aos 80

Esta parece ser a grande razão para olharmos para esta transformação como um admirável mundo novo da participação digital. Dos 8 aos 80, qualquer pessoa capaz de descrever aquilo que procura consegue ditar as instruções a uma destas plataformas de vibe coding para criar uma primeira solução digital.

Naturalmente, utilizar estas plataformas também requer aprendizagem. Mas, como vimos, a barreira de entrada reduziu-se radicalmente, o que nos faz crer que estamos perante uma inovação de caráter disruptivo, uma vez que tratamos de tecnologias que começam por tornar mais simples e acessível algo que anteriormente exigia maior especialização, destapando o tal "oceano azul".

Hoje, se eu pedir a uma pessoa que nunca programou, para escrever, em linguagem corrente, aquilo que pretende que uma determinada aplicação faça, conseguimos transformar essa descrição numa solução funcional. Isto significa, de certa forma, que a pessoa passa a conseguir participar diretamente no processo da criação digital que até então estava reservada somente para os programadores.

O custo de experimentar também mudou

Como seria de esperar, esta tecnologia traz consigo uma dimensão económica importante.

Estas plataformas têm custos, e a ideia de que a IA é gratuita tem sido reduzida (em especial) durante o último ano. Mas a inteligência económica consiste em comparar esses custos com as alternativas ditas tradicionais. Todas estas plataformas de vibe coding, como o Google AI Studio, o Lovable ou mesmo o Claude têm limites e custos associados aos seus plafonds de utilização.

No meu próprio caso, a experiência permite-me manter algumas ferramentas em funcionamento por valores na ordem de poucos euros por mês, somando-se as naturais subscrições dessas ferramentas.

Porém, é aqui que a formação conquista o seu lugar, em especial junto dos novatos, porque a prática conduzida por alguém mais experiente por norma reduz os custos do desconhecimento. Um admirável novo "programador" pode criar soluções digitais, que têm custos de operação mais ou menos elevados, em virtude daquilo que pede à plataforma para esta fazer e como o implementa.

Como é de esperar, alguém que queira fazer o caminho sozinho terá de assumir os custos da sua própria experimentação, porque, virtualmente, podemos pedir o que quisermos a estas plataformas, mesmo desconhecendo os custos inerentes à operação dessas funcionalidades. Algumas vão ter mais custos de funcionamento do que outras. Por exemplo, se criar uma app para design de interiores, onde submeto a foto de um espaço e cruzo com o pretendido pelo cliente para obter uma imagem ilustrativa, existe o custo pelo trabalho do modelo de IA.

Por isso, fica o meu repto para experimentar, de preferência com a mentoria de alguém mais experiente. Quando uma organização se habitua a experimentar de forma rápida e barata, consegue testar mais soluções, aprender mais cedo e decidir melhor onde vale a pena investir o tempo e dinheiro.


Sobre o autor

Pedro Esteves é formador e consultor nas áreas da Inteligência Artificial, inovação e empreendedorismo, colaborando com o IPPS-Iscte e o Iscte Executive Education em programas de formação dirigidos a profissionais do setor privado e da administração pública.

O seu trabalho consiste na prática da Inteligência Artificial Generativa aos processos de trabalho, na adoção de novas ferramentas e na criação de soluções para a inovação organizacional.

É fundador do Portal IA Hoje e autor dos livros Inteligência Artificial Generativa com Confiança e co-autor do IA como Copiloto. É formado em Gestão Hoteleira e Relações Internacionais, com especialização em Gestão de Produto Digital, MBA e um mestrado em Gestão de PME.

No Iscte Executive Education, integra o corpo docente da Pós-Graduação Online em Tecnologias e IA Aplicadas aos Negócios.

Página de docente | LinkedIn | pedroesteves.pt

Perguntas frequentes sobre vibe coding

O que é o vibe coding? É a criação de aplicações, websites e outras soluções digitais a partir de instruções em linguagem corrente dadas a plataformas de IA generativa, sem escrever código à mão.

Qual a diferença entre vibe coding e no-code ou low-code? As ferramentas no-code e low-code, como o WordPress ou a OutSystems, já permitiam criar soluções sem programar da forma tradicional, mas exigiam aprender a ferramenta. No vibe coding basta descrever o que se quer, o que reduz muito a barreira de entrada.

O vibe coding substitui os programadores? Não. Serve sobretudo para prototipar e criar primeiras versões funcionais. Levar uma solução para produção e escala continua a exigir conhecimento técnico, sobretudo em segurança e estabilidade.

Que ferramentas de vibe coding existem? Entre as mais usadas estão o Google AI Studio, o Lovable e o Claude.

O vibe coding é gratuito? Não. Estas plataformas têm subscrições e limites de utilização, e cada funcionalidade pode ter custos de operação diferentes, sobretudo quando recorre a modelos de IA.

Preciso de formação para começar? Não é obrigatório, mas a prática acompanhada por alguém experiente reduz os erros e os custos de experimentar sem saber.

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